sexta-feira, 23 de março de 2007

Calçada


Turista carioca, de 67 anos, morre atropelada no centro de Rio Branco. Dona Mercedes, ao tentar contornar uma banca de camelô, três bicicletas acorrentadas num poste, uma motocicleta estacionada irregularmente, uma Kombi onde seu proprietário vende água de coco em cima da calçada e um buraco de obra no asfalto teve óbito imediato ao ser colhida por um caminhão de lixo que se evadiu do local em desabalada carreira.

Já o aposentado da Aleac, de 32 anos, conhecido apenas como Raimundo Tolete, sofreu traumatismo craniano, amputação da perna direita e pequenas escoriações generalizadas ao ser abalroado, na contramão por um ciclista visivelmente embriagado. O fato ocorreu por volta do meio-dia quando Tolete caminhava tranqüilamente pelo meio da pista da direita da Avenida Nações Unidas admirando as novas câmeras de segurança que pareiam com os semáforos. O pedalante se evadiu do local sem prestar socorro à vítima.

O estudante Sebastião Maia Covisque, de 17 anos sofreu acidente ofídico ao ser mordido no tornozelo esquerdo por uma cobra jararaca. A desgraça aconteceu quando Covisque ia para a escola, caminhando pela sarjeta da Travessa Guaporé, no bairro Cerâmica e, ao avistar um veículo que vinha do rumo do Parque da Maternidade, em desembestada carreira, na sua direção, saltou de pronto para a calçada vindo aterrissar no matagal que escondia o ninho da serpente que o atacou. O jovem permanece em observação no pronto-socorro do Hospital de Base.

Um vereador de Rio Branco, cujo nome não foi identificado foi brutalmente atropelado por vários veículos, de placas também não identificadas. O vereador teve morte instantânea com requintes de crueldade. O edil, trajando apenas uma sunga de banho com estampa do Flamengo caminhava tranqüilamente por uma calçada da Avenida Barão de Studart e, ao tentar atravessar a Avenida Antônio Sales, bem longe da faixa de pedestres, sofreu o desastre. A polícia descarta a possibilidade de atentado político e aposta em mais um fato corriqueiro deste trânsito louco de Fortaleza.

O que o eleito estaria fazendo no Bairro Aldeota, na capital do Ceará, muito distante da câmara de vereadores de Rio Branco, com seus projetos prometidos durante sua campanha eleitoral, ainda por serem elaborados (agora jamais serão)? Parece que nenhum dos outros acidentados, citados em publicações sensacionalistas se interessou em saber (e jamais saberá). Uma das promessas do então candidato era a de construir e restaurar calçadas. O próprio precisava também aprender a usar a calçada e a se comportar num lugar onde a principal lei do trânsito é extremamente observada: a da sobrevivência.

A minha mãe sempre me ensinou a andar na rua. Dizia: “Olha, meu filho, mesmo que a rua seja de uma só mão, ao atravessar, você tem que olhar para os dois lados. Sempre vem um abestado de bicicleta na contramão”. O que teria dito Dona Francisca, a mãe do Raimundo Tolete quando ele era apenas o Mundinho Ruma de Bosta? Num tempo em que nossa cidade era (muito mais do que é hoje) encravada no meio da floresta? Onde só existiam passadouros e ramais, ruelas e matagais? Talvez tivesse dito: Olha, meu filho, aquilo que vem ali no escuro é um caminhão, não é dois seringueiros com as porongas acesas, não, tá?

O estudante que foi mordido pela jararaca, já é de uma geração Manoel Julião, Xavier Maia, Calçadão da Gameleira, Parque da Maternidade... Projetos urbanos com calçadas incluídas. O problema é que o rapaz mora e estuda no Segundo Distrito, num dos primeiros bairros da nossa capital. Acostumado a passear no parque, esqueceu que perto de casa não tem calçada e saltou para o prejuízo. Na maioria dos bairros de Rio Branco, que mal tem água, calçada é algo incompreensível. É uma extensão da varanda ou, em muitos casos, é a própria sala de visitas de algumas residências.

Andar ali em cima chega a irritar quem está sentado nas cadeiras de boteco, que deixa de saborear sua ociosidade para dar passagem aos transeuntes. As pessoas andam mesmo é pelo meio da rua, peitando os ônibus, com uma expressão arrogante no rosto, arrotando a frase: “Deixa. Ele né nem doido de passar por cima. Eu tô nur meu direito!” Se o motorista agoniado tocar a buzina, recebe um olhar de desprezo e um punho cerrado, com o dedo médio em riste, na forma de um cotoco.

A pobre da Dona Mercedes, atraída pelo apelo publicitário: A Amazônia é nossa, veio cá buscar seu pedaço. Depois de mais de meio século convivendo com o trânsito carioca de milhares de veículos e de pedestres, com regras e leis aprendidas desde o pós-guerra, da época do Ford bigode à do Jeep marciano vem danar-se em terra de Galvez, onde só há poucos anos se passou a tirar carteira de motorista legalmente. A propósito, o nosso vereador veranista, findo em Fortaleza, apesar de estacionar três automóveis em sua casa, nunca ostentou o tal documento.

*Jornalista e pedestre

2 comentários:

Sebastião Vitor disse...

Braga,

Adorei o texto. Você continua com um humor excepcional. Como te disse uma vez, o Acre perdeu muito de sua alegria depois que você foi morar no Rio.

Um grande abraço do seu velho amigo Tião Vitor

Cartunista Braga disse...

Beijo, Vitor!