terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A roda e o Choco

Márcio Adriano Chocorosqui é meu amigo de "faz é hora!". É amigo daquele naipe que a gente não pega em arapuca, num sabe? Amigo do vera mesmo. Do tipo que empresta dinheiro e esquece, e quando a gente vai pagar, não aceita de jeito nenhum. Inda fica puto! Manda a gente tomar no cóxi e ir pra casa do Kamai. E, só de mau, espalha pra todo mundo que a gente deve pra ele. É gente fina, o Chocorosqui.

Poeta, jornalista, cartunista, exímio jogador de sinuca, professor de Língua Portuguesa, ator, cineasta, culinarista, bar tender e corintiano. O Choquito é um talento em expansão perpétua. Opinioso, contestador, prestador de atenção... Quando decide ir por um caminho que todos concordam não ser o mais apropriado, ele teima e vai assim mesmo. É intuitivo, impetuoso, destemido e destrambelhado.

Isturdia, lendo em seu blog Blecaute, me instruindo com sua letra sem garrancho e me divertindo com seu talento de contador de boas estórias, soube que ele sofrera acidente locomotivo. Tinha levado uma bela duma queda de bicicleta. O velho Choco, adepto do fisiculturismo, difusor do lema “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa!”, gosta muito de testar suas habilidades adormecidas, no que diz respeito a seus limites físicos ante as Leis da Física.

Roto, todo escoriado, esfolado, asfaltificado levantou e arrastou para fora a ferruginada grade (Outrora luxuoso portão residencial cadeadado) e entrou. Herculiamente carregou para dentro as ferragens do que fora sua bicicleta. Silenciosa e cautelosamente, procurando não chamar atenção de Rutinha, sua consorte, nem de Vanessinha, sua conselheira e dona do veículo de diversão e transporte, tropegou pelo beco, além da varanda, no rumo do quintal matagalhado.

Uma ruma de pegadas, de pé direito nu e pé esquerdo calçado, imprimiram no assoalho rastros de lama encarnada. Uma marca preta, na forma duma mão toda, que ficou no retrovisor direito do carro, que tava na garagem, mais outra, igualzinha, na parede que fora pintada, um dia desses, da cor-da-pele, mais uma bituca de cigarro mentolado foram providenciais para o paramédico do SAMU encontrar o Choquito desabado, dormindo enganchado no único aro ainda redondo, que sobrou da bike.

Dias depois do sinistro, numa de nossas costumeiras pelejas de bilhar, no Sinucão do Cowboy, o Márcio, mostrando o carnegão do joelho pra Raquel (amiga gentil, profissional em cerveja gelada e simpatia), Dona Ruth (respeitável conselheira e experiente prestadora de atenção) e Marcelão (macaco véi, do cu pelado), disse que, para pião rodado, aquilo era besteira e que não há arranhado que Merthiolate não arda, bandeide não cicatrize, patins não aprimore, skate não finalize. E roda a bola, que roda a vida e viva o Choco!

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