segunda-feira, 18 de julho de 2011

Nada, de novo

Republicando

Nada

Neguim tinha uns doze anos quando viu ele chorando, por trás da bananeira, no fundo do quintal. Ficou espantado e parou. Até esqueceu que ia tomar banho dentro da caixa d’água, que ficava depois da bananeira. Aprendeu mais uma lição om ele. Aprendeu que herói chora.

Olhos vidrados, olhos molhados. Situação esquisita. Neguim não sabia se continuava ou voltava pra dentro de casa. Em pé, congelado, Neguim viu e ouviu o choro. Era um choro grande, o choro de um homem grande. Neguim não entendeu nada. Como era possível aquele homão chorar?


Neguim chorou de medo quando ele o puxou pelo braço, o ergueu contra o sol e o abraçou carinhosamente, um abraço bem apertado, daqueles de tirar o fôlego. Ele chorou grandemente, gemeu, urrou assustadoramente. Neguim pensou na pisa que ia levar, por que achou que ele tinha descoberto a desobediência da ordem de não nadar dentro da caixa d’água do fundo quintal.


Nada foi dito. Palavra não foi falada. Os dois choraram. Cada um por seu motivo. Os dois sofreram. Os dois se amaram. Neguim entendeu, inexplicavelmente, que aquilo era a última lição, que não era uma reprimenda, que não aprenderia dele mais nada, que não haveria mais lição nenhuma. Neguim o abraçou com mais força. Não queria largá-lo nunca mais.


Neguim viu o papel, com manuscrito ilegível, com carimbo borrado, com assinatura de médico, jogado no buraco do fundo do quintal, o buraco onde se enterrava o lixo, o buraco antes da bananeira que ficava antes da caixa d’água, a caixa d’água onde Neguim não nadou nunca mais.

Sociais

Álbum do Cartunista



Pedro Otávio Paiva Braga, filho deste colunista, clicado por ele mesmo, num banheiro da Escola SESC – Rio de Janeiro, onde mora e cursa o ensino médio profissionalizante.

Três da imprensa acriana flagrados em plena diversão, no Point do Pato. Escritor e big boss do diário A Gazeta, Silvio Martinelo, sua bela esposa, colunista Ivete Martinelo e a radialista, escritora, publicitária, cheia de energia e atitude Eliane Sinhazique.

O titular recebendo a ilustre visita do grande ator Leandro Firmino, protagonista do sucesso nacional da sétima arte, Cidade de Deus.

O extraordinário artista plástico Danilo de S'Acre, num flash seringueiro e descontraído.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Bar do Álvaro Rocha

O cara bonito nesta fotografia, clicada pelo Altino Machado, indagorinha, no Mercado do Bosque é o grande Zelão. O lanche/bar é o melhor point da madrugada riobranquense, onde, vez por outra, nosso saudoso jornalista Álvaro Rocha marcava sua irreverente, agradável e inesquecível presença. Ali ele sentou pela primeira vez, no dia em que não bebeu sua última Skol com Frutas. O abestado, escorado na coluna é um amigo do Zelão e do Álvaro.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Dimenor

Gol do Flamengo! Que jogo!
Escangalha o orelhão indefeso
Um cigarrinho proibido aceso
E um mendigo pra tocar fogo

Armado de arenga e desprezo
Cheinho de marra e coragem
Pronto pra fazer essa viagem
Sem medo algum de ser preso

Taca a tapa na cara da quenga
Aleija, destrói, deixa capenga
Agarra, espanca gringo obeso

Hoje é o domingo do dimenor
Em casa, todo banhado de suor
Dorme na cama do papai, ileso

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Só no reflexo

- Ei gostosa, vem aqui e me dá esse negocinho que tu tem entre as pernas.
- Se manca, bicha imunda, absorvente não se compartilha.

- Aí, pessoal! Esse é o Braguinha, feio que só o cão, mas é meu irmão.
- Olá. Tudo bem? Como ele disse, eu sou o Braguinha, feio que só o cão, irmão dele!

- Braga, você tem defesa pessoal?
- Não, mas tem um pessoal que me defende.

- O senhor viu se o Circular já passou?
- Vi não, senhora – disse o deficiente visual.

- Que hora é essa?
- Sei não, senhor. Eu num sou daqui!

- Braga, o que tu faria se ganhasse sozinho na mega sena?
- Ficava com o dinheiro só pra mim.
- Tu não me daria nadinha?
- Daria sim! Te daria tchau.

- Rapaz, eu sofro de insônia. Tu sabe o que que é bom pra dormir?
- Pra mim é rede.

- Me aponte um presidente desse país que não tenha metido a mão nos cofres públicos!
- Tancredo Neves.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Eu marcho por Jesus Cristo

Toda honra e toda glória seja dada a nosso Senhor Jesus Cristo, filho unigênito de Deus, que morreu terrivelmente pregado numa cruz, depois de ser covardemente traído, torturado, humilhado e abandonado por seus amigos. Sem ter cometido crime algum, sem ter mentido, sem ter roubado, sem ter matado. Por falar de amor e perdão, por ser corajoso, honesto, respeitador, generoso, humilde e incontestável.

O filho do Senhor dos Exércitos, Príncipe da Paz, detentor de inimaginável poder de criação e destruição, mestre dos mestres, adorável, perfeito e maravilhoso, Jesus Cristo, Deus, imortal, incorruptível, se fez homem de carne e sangue e tornou-se mortal. Desceu de sua magnitude e igualou-se a sua maior criação. Viveu entre nós e se deixou matar para voltar a viver e arrancar da morte sua invencibilidade.

Me deu a liberdade de falar e fazer o que eu tiver vontade. Me deu livre arbítrio, me ensinou sobre o bem e o mal e me deixou escolher. Provou com sua própria vida que eu também posso ser um vitorioso. Me deu a liberdade para contestá-lo. Me deu o direito de não acreditar em suas palavras e disse que sempre me amará e perdoará todas as minhas falhas, mesmo que eu o odeie e o negue, e o despreze, e não marche ao seu lado.

Eu te amo Jesus! Obrigado por ter me dado a vida. Obrigado por seu sacrifício por mim. Obrigado por me dar a oportunidade de chegar ao Pai. Obrigado por perdoar meus erros. Obrigado, Jesus!
Todo honra e toda glória sejam para ti, Jesus Cristo. O Senhor é meu Deus! O Senhor é que é digno de louvor e só por ti é que eu sempre marcharei. Bendito seja o teu nome em todo a terra, meu Deus, meu Pai, meu Salvador.

domingo, 12 de junho de 2011

Carta de referências

Não é bem assim! É porque ele, às vezes fala muitas coisas. Lê muito e sai falando o que leu. Mas, não ligue não pra essas coisas que ele fala, viu?. Ele é muito bom. Mas, muito bom mesmo! Eu que o diga. É sério! Eu é que sei. Me disseram que ele tinha escrito umas coisas, aqui na internet. Isso e aquilo outro. Hum! Eu nem liguei! Sabendo quem é... Hum, eu nem liguei! Olhe, é assim... Deixa eu dizer... Eu conheço ele, faz é tempo!

Me mostrou um desenho, um rabiscado de lápis de cor. Disse que era um leão. Pense, que era mesmo que tá vendo um leão! Era mesmo! Eu num disse nada. Nem que isso, nem que aquilo. Ele saiu mostrando o tal do desenho do leão pra Deus e o mundo. Agora, pra num me deixar mentir, quem via o desenho, dizia, na mesma hora: Isto é um leão! É verdade! Pode acreditar, que eu num sou de mentir! Quem me conhece, sabe.

Depois disse que ia ali, numa tal de reunião do grupo. Que grupo? Mas que conversa é essa? Deu as costas e saiu. Hum! Era um grupo de teatro, acredita? E eu preocupada. Sim, porque, naquele tempo a gente tinha muito medo das coisas, né? Mas ele sempre foi assim mesmo, mas nunca me decepcionou. Uma besteirinha aqui acolá, todo mundo comete. Fora isso, que é coisa que qualquer pessoa está sujeita, eu num tenho nada a dizer dele.

Se depender de minha opinião, se for por mim... Claro, se o senhor acreditar numa pessoa que criou seus filhos pré-adolescentes, viúva, sem estudo, mas sabendo o que é boa educação, respeito e honra há de levar em consideração minhas palavras. Eu boto a mão no fogo por esse menino. Não tenha medo de contratar o Francisco... digo, o Braga. Eu me responsabilizo!

Sem mais no momento, assina: Rosa Camilo Silva Braga, mãe dele.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ventos virão

Marrapaiz! Meu Nosso Senhor Jesus Cristo, tenha piedade de nós! Mas que quentura mais aparentada das fornalhas das profundas! Rio Branco tá tão quente que galinha caipira tá morrendo espocada, com o papo chei de pipoca.

A temperatura já tá passando dos quarenta e tantos graus, isso dentro de tudo quanto é frigorífico e sorveteria. Já tem até loja de artigo religioso no maior prejuízo, com os estoques de vela tudo derretendo nas prateleiras.

Por conta dessa onda horrivel de calor, tem até casal bem casado, dormindo em camas separadas, pra num subir mais a temperatura, arriscado amanhecer só cabelo boiando numa poça de suor, no mei da cama.

Lá em casa já é ao contrário. Depois de uns trinta anos eu dormindo na rede, este calor arrombado fez foi eu voltar a dormir de cama, abraçado com minha mulher. É mer que dormir agarrado com uma garrafa de Skol litrão, véu de noiva.

Nem ar condicionado, de seiscentos e tantos caralhões de BTU tá dando vença nesse calor da bubônica. Veículo refrigerado, que ainda segura um pouquinho essa temperatura, e olhe lá, só mesmo aquele de vender picolé.

Enquanto o pau tora, professor Friali diz que os ventos da Argentina vão trazer friagem. Já o Brujo Callori, garante que vento bom mesmo vem é da Bolívia e profetisa que vai ter promoção de ventilador em Cobija. E vamo que vamo se abanando.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Transaquáticas

A gente transou dentro de uma banheira, no banheiro da Casa Amarela, de dia, enquanto uma fila enorme esperava irritada do lado de fora. Transamos de madrugada, no fundo do ônibus que, em alta velocidade subia a Serra da Borborema. No alojamento, no festival de teatro, transamos sob o cobertor, sobre um colchonete dentre os outros, onde outros fingiam dormir.

Corremos nus pela imensa e deserta praia alvinha de Morro Branco, depois que transamos nela, num labirinto de falésias. Insignificantes corpos despidos, entre o céu mais azul possível e a mais fina rajada de areia daquela duna de Canoa Quebrada, transamos até arder. Gastamos milhares de metros cúbicos de água, quando transamos sob a ducha morna da suíte do hotel em Garanhuns.

Me queimei na caçarola de espaguete, ao tentar me apoiar no fogão, quando tropeguei exausto, depois que transamos na cozinha. Quando vim do quintal, após me assear na beira do rio Gurguéia, assisti teu sono por horas e tu, deitada de bruços, nua, suada, brilhante afastou mais um pouquinho as pernas e transamos de novo, enquanto dormias, dentro da barraca.

Perdi a conta das estrelas piscantes e objetos voadores não identificados que vimos, deitados sob a ribalta mais clara que a lua já conseguiu se destacar. Então, transamos ali, no palco mais chuvoso da Amazônia Legal. Na rede maior que nos ofereceram, transamos. Agradecemos e pegamos a estrada de volta ao lugar de onde viemos. No caminho, transamos sob muitas nuvens e nos molhamos no poço jorrante de Cristino Castro.

A gente brigou, chorou, se arrependeu e pediu perdão um ao outro, depois nos beijamos e transamos ali mesmo, nos fundos do Casarão. Transamos, subindo a escada do Manoel Julião. Caímos do sofá e transamos no tapete. Nós transamos muito. Transamos demais. Ainda assim, eu acho que transamos muito pouco. Sempre me pergunto porque não transamos mais.

Quando chegamos em nossas águas salgadas, poluídas e cansadas de tanto nos bater, com sabão em pedra, pra nos limpar, esfregamos nossas vestes nodoadas. As estendemos e as deixamos quarar sob o sol mais afastado, pela maior tormenta de fim de primavera, do sul do Brasil. E, sucumbes ao vento forte, vindo das ventas da morte, nos afogamos para sempre quando transamos no mar da Terra do Fogo.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Do Ceará

Sou do Ceará
 
Ricardo Gondim

Ser do Ceará é mais do que nascer no Ceará, é conseguir reconhecer, à distância, uma cabecinha redonda, um sotaque cantado, uma orelha de abano, um jeito maroto de encarar a vida.

Ser do Ceará é saber a estação certa de colher um sapoti, conhecer os vários tipos de manga e nunca comprar ata verde demais; é dar sabor a um baião de dois com queijo coalho.
Ser do Ceará é gostar de cocada, de suco de tamarindo, de siriguela vermelha, de água de côco docinha. 

Ser do Ceará é engolir o final dos diminutivos - cafezinho vira cafezim; Antônio vira Toim; bonzinho vira bonzim. Lá se fala aperreio na hora do sufoco; o apressado é avexado; o triste fica de lundu; quem cria problemas, bota boneco.

Ser do Ceará é morar onde os muros são baixos; lá todo mundo sabe da vida alheia. A melhor conversa entre cearense é fofocar. Aparecer em coluna social sempre foi o máximo. Pense nos que pertencem a família com pedigree?  Eles fazem parte dos eleitos: Studart, Frota, Távora, Jeiressati, esses, sim, são considerados o supra-sumo. 

No Ceará não se compra casa do lado do sol; ninguém valoriza casa com a frente voltada para o poente. O sol não perdoa; é inclemente, ardido, feroz, cansativo. No Ceará, quem não souber lidar com o astro rei, dura bem poquim. Entre dez da manhã e cinco da tarde, esse bichim brilhante deixa todo mundo melado; não existem peles secas no Ceará, todas são oleosas. 

Ser do Ceará é aprender a dormir de rede, a gostar do cheiro de lençol limpo, a tomar banho frio, a valorizar a brisa do mar. Lá o perfume de sabonete tem outro valor. No Ceará as mulheres não usam meias finas, os homens não toleram gravatas e as crianças não sabem o que é uma blusa de lã. 

Ser do Ceará é ter orgulho de afirmar que pertence à terra de José de Alencar, Patativa do Assaré, Fagner, Eleazar de Carvalho, Clóvis Bevilácqua. Lá amam-se as artes. Não tem coisa mais bonita que assistir a um repente na praça do Ferreira. Como se  cria repente com facilidade. Está no sangue conversar com rima. 

Ser do Ceará é lidar com umidade, com camisas empapadas de suor, com mofo, com moscas aos milhões, com muriçocas impertinentes, com baratas avantajadas, com viroses brabas, com desidratações súbitas. Lá os fracos morrem rapidim. O darwinismo, teoria da sobrevivência dos mais fortes, se prova facim. No Ceará, nuvens negras são prenúncio de bom tempo e relâmpago, uma bênção. Em dia chuvoso ninguém quer sair de casa.

Ser do Ceará é rir por tudo. E tudo vira piada. Em um dia lendário, estava nublado, quando o sol resolveu rebentar as nuvens... e levou uma sonora vaia. Não conheço nenhum povo que tenha vaiado a estrela maior.

Os cearenses são antes de tudo uns fortes. Ao mesmo tempo, deliciosamente bons e perversamente maus. Lá é terra de pistoleiro e de santo, de revolucionário e de coronel caudilho, de guerreiro e de preguiçoso. 

Sou cearense. E por mais que tenha me afastado, não consegui apagar o meu amor pelo chão que me acolheu no mundo. Lá nasci, casei e tive filhos. No Ceará, despertei para o mundo, como também, infelizmente, sepultei o restim de esperança que nutria pela humanidade. O Ceará foi o meu ninho e é o túmulo dos meus ideais. Em Fortaleza, tive as maiores alegria e as mais duras agonias.

Contudo e apesar de tudo, continuo enamorado do meu berço. Não pretendo desvencilhar-me de ti, loira desposada do sol. 

Soli Deo Glori

Ricardo Gondim é pregador do evangelho de Jesus Cristo e fundador da igreja Assembléia de Deus Betesda. Leia mais sobre o polêmico reverendo Ricardo Gondim que disse: "Deus nos livre de um Brasil evangélico!" e afirma ser a favor da união civil gay, em entrevista na Carta Capital

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sexismo, humor e publicidade

As grandes fazem rumas maiores. Veja um dos VTs da nova e péssima campanha da Bombril criada por Francesc Petit, o "P" da agência paulista DPZ. Comercialzinho besta, sem a menor graça e sem a peculiar genialidade de suas campanhas anteriores quando Petit fazia dupla em criação com Washington Olivetto, o "W", da famosa W/Brasil.




Aprendi que humor mau feito, forçado e sem propósito não é nada recomendável à saúde de uma boa publicidade.

Mas os caras vão com tanta sede ao pote de ouro da boa propaganda de humor que tropeçam e quebram tudo, de onde acabam saindo essas “pérolas” abomináveis.
Mexer com sexismo associado à venda de produtos domésticos e tentar fazer piada nova com tema tão batido, não é pra qualquer Washington Olivetto de R.U. e shopping center não.
E olha que eles sabem bem como não se deve fazer.

Para relembrar, taí uma série de anúncios machistas de algumas décadas atrás. Mesmo naipe, mesma medida. A única diferença destes anúncios para os da nova campanha da Bombril é que eles não estavam ironizando ou fazendo piadinhas bestas, eles falavam sério mesmo.


Shhh! A mamãe está em ponto de guerra!

E porquê? Porque a cansativa lida doméstica a deixou irritável e descarrega no ócio e falta de apoio dos machos da casa. Mas se ela usasse o sabonete New Ivory acalmava os nervos. Mais uma vez o produto fica em último lugar e a apelação sexista ganha mais importância. Talvez arrancasse gargalhadas na época, mas esse anúncio é uma das mais fuleiras e imprestáveis publicidades do mundo.
 

 

 Se o seu marido descobrir... 

Que ela o trocou por outro? Não. Simplesmente que não comprou a tal marca de café. Isso é absolutamente imperdoável. Muito engraçada a piada, né? Propaganda machista explícita.
Repare que parece ser socialmente aceito que o marido surre a esposa como se fosse uma filha a quem, por força da tradição, lhe cabe dar lição a custa de palmadas. Humor aplicado ao adultério e usado na publicidade até hoje, como este do posto Ipiranga, abaixo.



Veja mais anúncios sexistas de passado nem tão distante.

 Se tivesse quebrado as unhas 14 vezes enquanto limpava um forno entenderia porque eu quero tanto este que se limpa sozinho

Uma mensagem duplamente negativa. Por um lado transmite a ideia de que a mulher é desajeitada e fútil, obcecada com as suas unhas; por outro, de que o seu lugar é na cozinha.


 Quer dizer que uma mulher consegue abri-lo? 
 
Aqui, a mulher é colocada como uma imbecil, incapaz de abrir uma tampa de garrafa rosqueável. A publicidade machista e equivocada, preferiu tratar de uma pseudo incapacidade do sexo feminino do que do aprimoramento tecnológico de seu produto, no caso, uma tampa fácil de abrir. Ora, o produto é lacrado mecanicamente na fábrica, por um robô industrial o que torna imensamente difícil de ser desrosqueado por mãos humanas comuns indiferente de serem femininas ou masculinas.


Veja mais no site Obvious

Pra terminar, uma sugestãozinha para a Bombril. Por três décadas suas boas campanhas da série com Carlinhos Moreno tem, assim como a esponja de aço Bombril, mil e uma utilidades. Muito mais que simples publicidade de varejo são uma instituição cultural e popular. Por favor chame Washington de volta!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Perainda

Vai agora não! Deixa de avexo!
Ôxe! Fica só mais um pedacim.
Porque num deixa de ser assim?
Embalança aí na rede! Eu deixo!

Espia mais pr'esse céu mei roxo,
Algodãozado e, pelaqui, pracolá
Riscado por bicho que sabe voar
E fazer tu relaxar a cinto frouxo!

Cochila sem pressa. Espreguiça.
Assovia pr'essa moça tão linda,
Que passa deixando seu cheiro,

Olor de vida único e passageiro.
Sim, porque no fim é só carniça.
Num vai agora não! Perainda!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

David Sento Sé escreve

Vai sim
Toda dor passa. Um dia passa. Não creio mais em dores eternas e coisas imutáveis da vida, essa coisa de: “... eu nunca vou...”.
Poxa vida! Esse “Eu nunca vou” é péssimo. 
Tem o “Eu nunca vou conseguir”, tem o “Eu nunca vou deixar”, o “Eu nunca vou poder” e tem o mais comum dos “Eu nunca” que é o “Eu nunca vou esquecer”. 
Ora tome vergonha, que esse negócio de ficar lembrando ou esquecer, é coisa que só você resolve. E pode parar de ficar culpando uma força extraterrestre por isso, como se o universo inteiro tivesse predestinado você a uma fatalidade imutável.
Esquecer, só começa com o mudar e o mudar só começa com o querer mudar. Depois é só tentar e tentar algumas vezes até que o destino cochila e você rompe essa barreira estúpida do “... eu nunca vou...” e muda. Aí esquece. 
Esqueceu? Pronto, agora é que vem a parte boa. Quando você esquece, permite a entrada de um personagem fundamental no seu reviver: O novo.  E o novo pode estar aí na sua esquina ou até, você já esteja convivendo com ele e só não se deu conta.
O fato é que pra que isso aconteça primeiro você tem que tirar a bunda da cadeira, a faca do peito, o peso da consciência, a lágrima do olho e principalmente, tirar da lembrança o passado bom. Quem vive lembrando-se de um passado bom não percebe que tem um presente péssimo e não se permite um futuro melhor.
Vai, levanta daí e repita comigo: Eu vou.

Vai, levanta! 
Ou você vai me dizer: “Eu nunca vou me levantar.”?
David Sento Sé é publicitário, marqueteiro, pintor e tocador de gaita. Escreve no blog Contar Gotas

Retratos de Rio Branco


É prudente perguntar quais, dos profissionais desta clínica, são dentistas e quais são odontólogos.


ALCINETE DAMASCENO 

Falar o quê?

sábado, 30 de abril de 2011

Onomatopeias dos sentidos

Ouvido que leva tabefe,
não ouve nada mais

Ouvido de quem tabefa
Ouve PAFT! e CRÁS!

Corpo de quem desaba
Faz POFT! e STEBEF!

Corpo que desaparece
Faz só VAPT-VUPT!

Beiço passado língua
Franze e faz FIU-FIU!

Língua atrás de beiço
Num faz nem SSIU!

Dedo de mão atrevida
Sai assim: ZIPT-ZUPT!

Dedo de mão em gatilho
Dobra sem fazer TREC!

Venta que fareja muito
Sempre faz FUM- FUM!

Venta de porco novilho
Fuça porcaria. ERC!

Olho que se arregala
Cai da cara. PLOC!

Olho gordo, míngua
Enfraquece e PUFT!

Tesouros perdidos

Um velho adágio popular diz assim: Tem coisas que a gente só valoriza quando perde. Brega, piegas, mas rico em verdade e significado. Possuímos minúsculas preciosidades divinas, que vem conosco desde nascença: os cílios. Fundamentais na proteção de nossos olhos, sutis e essenciais acessórios de fábrica, de tão frágeis e delicados são insubstituíveis. Desleixados, ignoramos sua existência, ainda que sejam o alvo mais próximo de nossa visão.

Não sendo através de um espelho, num paradoxo desconcertante, só enxergamos um cílio quando ele se afasta do olho. Mais patético ainda é que o cílio que costumeiramente vemos, repousado serenamente, feito um cisco no rosto, despregou-se do olho de outra pessoa. Aí a gente comunica à pessoa mutilada, dizendo que tem um cílio em seu rosto e ela, assim como qualquer um de nós, num misto de surpresa e nojo passa, instintivamente na face, as costas dos dedos da mão e afasta para longe, para sempre seu caríssimo pedaço.

As crianças, com sua maravilhosa sabedoria infantil, dão mais valor ao cílio. Tinha uma brincadeira que eu fazia com minhas irmãs, quando pegávamos um cílio. Era um tipo de mandinga, sei lá, pra realizar desejos. Um joguinho divertido que valorizava aquele pequeno pelinho da pálpebra, dando-lhe propriedades mágicas. Creio que ainda tem gente, até adultos que ainda faz isso. Apertando o cílio entre nossos polegares, sacudindo as mãos e dizendo palavras mágicas, quem ficasse com o cílio no dedo, teria seu pedido realizado.

Ana Carollina tinha três pra quatro anos quando viu um cílio em meu rosto. Curiosa, perguntou porque tinha um bigode meu fora do lugar. Eu ri e dei uma aulinha de cílio pra ela. De olhar fixo, atenta, compreendeu a importância daquele pelinho para seu olho, mas ficou pensativa e meio triste ao saber que jamais nasceria outro cílio no lugar de onde aquele havia saído. Me fez dar um bela gargalhada ao perguntar se meu olho ia ficar careca.

Pra alegrá-la de novo, fiz com ela a brincadeira do cílio no dedo. Ela adorou. Ficou super feliz porque ganhou o jogo e seu desejo iria se realizar. Correu, foi espalhar sua vitória pra todo mundo. Aí, sabe como é, né? Começou a me encher a paciência. Queria porque queria que eu revelasse o meu desejo, já que eu tinha perdido o jogo e, em sua lógica extremamente coerente, ela tinha o direito de saber. Insisti que era segredo, isso e aquilo. Sem jeito.

Pra que ela continuasse feliz, eu concordei em revelar meu desejo, contanto que ela também revelasse o seu. Topou. Então eu disse que desejei que ela fosse a menina mais feliz do mundo. Surpreendentemente, ela ficou brava e eu fiquei boquiaberto. Ela disse: Ah, não! Assim, tu ganhou o jogo também, porque eu desejei que, se nascesse de novo, outro cílio no seu olho, eu seria a menina mais feliz do mundo!

Faz uns quinze anos que não a vejo. Sempre que enxergo um cílio, me lembro desse dia. Nunca esqueci daquele cílio. Aquele pequenino membro, que afastei de mim, com as costas dos dedos da mão, num ato desastrado. Nunca mais vi aquele insubstituível cílio, que deixou em seu lugar uma enorme vala aberta em minha pálpebra inferior, por onde sempre passam e jorram, com mais vasão as minhas mais remorseadas e preciosas gotas de saudade.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Filho de Deus

Danilo de S'Acre, objeto artístico, 2006. Acervo Usina de Arte, Rio Branco-Acre

Fecundação

A porta se abre
Entre seios entorpecentes de Zílio
Asas estimulam contemplações e sonhos...
A fecundação súbito um susto!
Invade a ciosa memória
A brisa passa
A hora atrasada permanece
Ainda no pólen estremecido. 


O poeta Danilo de S'Acre, dono de um talento arrebatador é uma dessas obras de arte que Deus demorou um pouquinho mais pra criar e achou por bem, doá-lo ao restante de sua criação. Eu sou um abençoado por tê-lo como melhor amigo.

Altino, mano véi

Agora, pronto! Agora vou dizer!
Mas como é que pode, Altino?...
Inda mais tu! Hum! Sostô você!
Duvidar d'eu?! Ora mais minino!

Isso é coisa? Francamente, viu?!
Vá lá, se fosse ôto no mundo,
A cata dum vapaputaquepariu!
Ou um vassilascar pelo fundo!...

Achava eu que tu me conhecesse,
De faz é tempo, de faz é hora!
Do teatro, do jornal, da agência...

Me rastrear num tal de gugouêrse?
Essa foi de corar Nossa Senhora!
Ah, Altino, tenha santa paciência!