quarta-feira, 27 de abril de 2011

Aldeota

Sou nascido e criado na rua Padre Valdevino, entre José Vilar e Nunes Valente, no bairro Dionísio Torres (abduzido pelo famoso bairro Aldeota, capital de Fortaleza, capital do Ceará), na casa defronte a da dona Alzira, mãe de madrinha Alderice, Nazira e Alísio, tia de madrinha Margarida, Olivar e Mairto, filhos de dona Luiza, a avó de Magali, Marcos Aurélio, Márcio Greyke e Marcílio, primos de Ângela, Egildo e Sandra, filhos do padrim Mozart, irmão da madrinha Margarida.

Maga, Marco, Márcio e Basca (Marcílio) foram (e são) meus vizinhos/primos/irmãos. É assim que me lembro deles. É assim que os amo. Minha madrinha Margarida, conhecida lá em casa como Cumade, me pegou em seu colo, me deu carão e chá de limão com alho e querosene, "mode a gripe". Me deu bolo de milho com café, não deixou a mãe me dar pisa, achou graça das minhas presepadas e dizia “Deus te abençoe!”, toda vida que eu pedia a bença.

Seu Antõe Beto tinha uma bodega sortida, ao lado da casa da madrinha. Lá ele vendia de um tudo. Era bolo maria-maluca, aluá, cocada de coco queimado (que a gente chamava de Martinho da Vila), chiclete Ping-Pong, Batom Garoto, meio pão passado com manteiga, piula-do-mato, Cibalena, pasta Kolynos, sabão Pavão e Gillette Blue Blade. Esposo da dona Albertina, pai da Aila, do  Francisco e do Aldísio, seu Antõe me ensinou a dar nó em gravata.

Vesti terno pela primeira vez pra ir numa festa muito elegante, no Clube Náutico Atlético Cearense, onde meu tio Lisboa foi receber o diploma de médico. Era um paletó antigo do meu pai. Minha mãe, exímia operadora do pedal de sua Vigorelli ajustou perfeitamente o passeio completo, cinza escuro, às minhas medidas. A gravata azul marinho, em contraste com a alva camisa de tergal, fixava o colarinho no pescoço, por meio do nó que seu Antõe atou.

Ali, em derredor daquele quadrado, numa época em que menino traquinas num tinha querer, eu tinha uma ruma de quintal pra correr atrás de queda, pés de caju, manga, azeitona e goiaba onde, vez por outra, ganhava um bicho-de-pé, puxões de orelha e Merthiolate, depois das cutucadas da carinhosa e esterilizada agulha da mãe que, com linha Corrente Laranja, pregava botões nas minhas camisas e cerzia bainhas de pernas de calças do pai.

Eita, que saudade! Tô tão longe de lá. Fazia era tempo que eu num via minha rua. Sim, porque eu vi de novo agora, só em me lembrar. E esse é o único jeito mesmo, fora uns dois ou três retratos, que carrego como bagagem, de eu rever meu quarteirão, meus vizinhos e amigos de outrora, de faz é hora. Só assim desse jeito, lembrando às custas da saudade é que eu ainda posso rever meu lugar,  lotado de histórias, minha amada aldeia, minha velha Aldeota.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Importante

Eu sempre fui um parasita. Nunca deitei sob um teto que não fosse de alguma pessoa que me tivesse amparado. Tenho meio século de vida, menos algumas horas. Sou egoísta, trapaceiro e mentiroso. Por ser desprovido de honra, vergonha na cara e moral suporto ofensas, agressões, desprezo e escárnio sem problemas. Tenho preguiça, sou incompetente e irresponsável. Fujo do trabalho. Sou folgado.

Rude, grosseiro, cruel esnobo quem me ama. Também nunca amei verdadeiramente pessoa alguma. Frequentemente, sem o menor remorso, desprezo minha família e exalto meus amigos por conveniência. Sou perdulário, hipócrita e dissimulado. Sou invejoso, aproveitador, cínico e covarde. Não tenho escrúpulos nem remorso quando engano, desrespeito e humilho quem não me convém.

Roubo, trapaceio, exploro e abandono qualquer pessoa. Seja mãe, irmãos, filhos, amigos. Sou ingrato, falso, perverso, infiel e insensível. Não tenho respeito por ninguém, sou inconveniente, indiscreto e mal educado. Sou orgulhoso e vingativo. Não sinto pena de ninguém. Sou destemperado, deselegante e violento. Sem controle, indisciplinado, não tenho metas, sou desastrado. Não tenho discernimento.

Sou feio, mal arrumado, fedo. Fumo, bebo, jogo. Sou pervertido. Ando mal acompanhado. Sou arruaceiro, desqualificado, detestável, tosco, doente, ordinário, insignificante. Mas, ainda assim, com todos esses atributos desprezíveis e abomináveis alguém foi maravilhosamente bondoso comigo. Me fez acreditar que sou importante, quando morreu em meu lugar, pregado numa cruz. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

domingo, 24 de abril de 2011

Só se der

Se der pra eu falar agora,
Eu falo.

Mas,
Só se der

Se não der...
Falar o quê,
Né assim?!

Só se der

Sempre falo isso
Pudendo,
Eu falo

Se der,
Eu falo

Mas,
Só se eu puder

Posso?
Agora?
Falar?

Só se for possível,
Né?
Eu sei...

Só...

Sei...

Sim...

Sei...

Não!
Não.

Só se der
Né assim?!

Corri com um

Fiquei mei indignado isturdia. Sujeito ficou abismado ao saber que eu tinha tino pra criar e desenhar marcas, logotipos e slogans. Só não parti pras vias de fato porque raciocinei na mesma hora. A culpa não era do admirado, mas minha. "Casa de ferreiro...", né mesmo? Eu é que não tenho mais divulgado minha profissão, não tenho mais mostrado meu post folio, meu curriculum. Taí uma pequena amostra do trabalho deste humilde diretor de arte publicitária. Qualquer coisa, precisando ligue: 068 9202-0689, falar com Braga.

Ausência presente

Estranhamente, nenhum convidado compareceu
Na espetacular comemoração do homem rico
Tanto mais penso nisso, mais encafifado fico.
Como isso foi possível? O que foi que aconteceu?

Muito mais esquisita foi a reação do milionário
Que sorria serenamente, no assoalho relaxado
Não chorou porque, em seu festejo malfadado,
Ganhou um presente, no dia do seu aniversário

Era uma mensagem enviada ao seu celular
Que tilintava os vitrais das janelas na grade
Com a canção, tradicionalmente repetida

Aquela que a gente é acostumado a cantar
Sem querer mesmo cantar, sem vontade
Batendo mão, sem ritmo, sem dó, sem vida

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Nudez

Do que tens medo, garota?
Não existe sentido nisto
Tentar cobrir teu priquito
Agora que estás sem roupa

Te despes também de receios
Que já sinto tua libido fecunda
Nos pelos eretos de tua bunda
E nos biquinhos de teus seios

Porque essa crueldade comigo?
Pois que, ao beijar teu umbigo,
Cheirosos pelinhos pubianos vejo

Não me imponhas tal castigo
Tira tua mão. Não tem perigo
Dá pra mim a visão do teu desejo

terça-feira, 19 de abril de 2011

Soutando o verso ou Rogando Braga a verso Souto

Sérgio Souto quero te perguntar
Já pedindo que tu não fiques puto
Diga aí, amigo véi, o que é que há?
Porque tua voz não mais escuto?

Vai! Puxa da memória e pensa
Nas conversas que teve comigo
Há em mim, saudade imensa
De querer ouvir a voz do amigo

Quando eu ouvi seu canto e voz
Vi, remeninado aluno de escola,
A mala aberta, cheia de fá-lá-si-dós
De um mestre em poesia e viola

Cadê ele, alguém me diga! Cadê?
Aonde tá o acreanador tão criativo
Mixador de dó-ré-mis no que dizer
Porque que se calou, qual motivo?

Como nenhum de nós dois é modesto
Que assim, sem falsa modéstia (Não ria!)
Receba estas letras, não como protesto
É um pedido encarecido por sua poesia

O jardineiro, a flor e o poeta

O jardineiro
Vê a flor
Cheira a flor
Rega a flor
Colhe a flor
Leva a flor

O poeta
Olha a flor
Admira a flor
Deixa a flor
Leva o perfume
Da flor

O jardineiro
Volta
Vê a flor
Cheira a flor
Rega a flor
Deixa a flor
Murcha
Sem perfume
Sem cor
no celofane

O poeta
Guarda
Para sempre
o perfume
da flor
que volta
sempre
sempre
sempre...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Estratagema

A cheia do Rio Acre é uma das maiores dos últimos anos. As administrações estadual e municipal (da capital) podem até usar suas ações em prol dos desabrigados como uma de suas plataformas de campanha, na próxima eleição. Tanto é que, extraordinariamente o prefeito transferiu seu gabinete para dentro do parque de exposições. Estão admiravelmente preparados tecnicamente para segurar essa adversidade natural e transformá-la em dividendo eleitoral.

Raciocinemos pois. Recursos para os programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, estão aparentemente em stand by. Podem ser facilmente desviados e destinados, de forma estritamente legal e de consenso popular para os flagelados da cheia. O recente episódio da invasão das casas do bairro Ilson Ribeiro, inexplicavelmente não entregues à população é, teoricamente, uma prova desta minha simplória elucubração.

Projetos paisagísticos e ecoturísticos, diga-se de passagem, excelentes, como o do Parque do Igarapé São Francisco, emperrados por questões indenizatórias e ambientais, entre outros entraves jurídicos podem ser rapidamente liberados mediante um evento catastrófico natural. Achei muito providencial essa transferência da prefeitura para junto dos flagelados que, frágeis, mediante modernas técnicas psicopedagógicas podem ser facilmente doutrinados.

Comunidades que vivem em favelas às margens do Rio Acre e do Igarapé São Francisco, podem ter dissolvidos, assim, instantaneamente seus problemas sociomonumentais, politicamente difíceis e caros de resolver, através de um simples decreto estadual de calamidade pública. É uma sacada genial. A oposição tem que rezar pra não chover mais uma gota d'água. Ou, por outro lado, se resignar e agradecer a Deus por terem adversários tão eficientes.

Enquanto eu divago em teorias conspiratórias, o tempo passa por mim. Daqui da minha janela vejo um céu de brigadeiro. Deixo minha imaginação voar. Não ouço trovões, não há vento nenhum. As folhas do pé de cupuaçu estão bem quietinhas. Esse calor me incomoda. Geralmente isso é prenúncio de tempestade. Estou apenas supondo. Por via das dúvidas, comprei um par de galochas e um guarda-chuva bem grandão.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Filha da Zorra

Antônia Lúcia, desde que voltou ao Acre para, única e exclusivamente conquistar um qualquer cargo eletivo, se utilizando da boa fé e também da má de alguns eleitores conseguiu se eleger deputada federal, mas deixou um rastro de seboseira por onde passou.

Após cada pleito em que a deputada participou nos últimos anos, se seguiram saraivadas de denúncias de negócios escusos, pedidos de prisão, cizânia no mundo pseudo-cristão-evangélico que comanda, diversos processos judiciais e sem número de versões nada esclarecedoras, tampouco convincentes publicadas na imprensa.

Colecionadora de ex-empregados revoltados, ex-apoiadores engalobados e ex-sócios pernapassados a deputada é mais conhecida na sociedade acriana, não como a Filha da Terra – Slogan de campanha que adotou, quando voltou ao Acre - , mas como praticante contumaz do conto-da-missionária – versão celular do velho conto-do-vigário.

Cheia de rolo com a justiça e a polícia, acusada de compra de votos mais uma montanha de crimes eleitorais, metida numa ruma de negociata política, cercada de parceiros irados com os resultados nada satisfatórios de seus negócios mau enjambrados a Filha da Terra poderia até mudar seu nome e apodo numa próxima campanha eleitoral. Tipo assim: Vote Antônia Súcia, a Filha da Zorra.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Súcia

Para o pífio
é mais fácil
Que o sócio
Desde o início
Seja néscio
Sem astúcia
Ou audácia

Seja dócil
Com ausência
De malícia
Tenha o vício
Da inocência
Mestre em ócio
e ignorância

É do pífio
a ganância
a falácia
a milícia
o comício
a delícia
e o palácio

terça-feira, 5 de abril de 2011

Rosa

Os nomes das flores são fáceis
Vulgares, difíceis, exóticos
Impronunciáveis, científicos
Simbólicos, óticos, fonéticos

Das flores, nos vem à memória
Suas qualidades mais óbvias
Suas singulares características
Assíduas em todas as línguas

Das quais, suas cores tão várias
Suas vastas formas complexas
E suas inesgotáveis essências
Relembramos bem mais rápido

Porém, seus nomes múltiplos
Sempre nos surgem, heroicos
Na frustrante ausência de ideias
Para um batismo de emergência

Eles, usados em versos poéticos,
Editados em páginas jornalísticas
Registrados todo dia em cartórios
Ditos em papos, cartas e músicas

De tão constantes em nossos lábios
Nos apropriamos de seus domínios
Destituímos das flores seus títulos
Desde o Gênesis, suas proprietárias

Aí, nominamos nossas famílias
Nossos bichos, nossos negócios
E tudo que possa ser nominável
Listados numa soma inconcebível

E arbitrários, em nossa empáfia
Adotamos alguns nomes ótimos
Todavia, outros nos soam patéticos
Destes, cito abaixo pouquíssimos

Meu tio, de nome Crisântemo,
É irmão de Flor-de-lis e Begônia
Lírio é o meu filho primogênito
A Margarida é a minha caçula

A do meio é chamada Orquídea
Soraia é uma prima legítima
Açucena nasceu em Brasília
Onde estudou Ciências Políticas

Quem nasceu aqui foi Acácio
Junto com a sua irmã gêmea
Criativamente chamada Acácia
Nomes dados pela avó, Azaleia

Violeta quer ser arqueóloga
Raquel é que foi pra Bulgária
Doutor Cravo mora no térreo
E é casado com dona Camélia

Girassol é o nome da síndica
Nosso porteiro é seu Crescêncio
Antúrio é meu amigo de infância
Filho adotivo do Cabo Gerânio

Jasmim é o sobrenome de Dália
Fui apaixonado pela Gardênia
E Hortêncio conheceu a Vitória
No Bar do Papoula, lá na Bahia

Rosa, nome da flor mais pública
Dona da mais popular fragrância
De mais bela forma arquitetônica
Onde mistura espinhos a pétalas

A flor dos verdadeiros românticos
De todas as flores, a mais simpática
Que também de amor ela é sinônimo
É o nome da minha mãe, coincidência

Stélio e a escada

Diálogo entre o escritor Antonio Stélio e o cardiologista, após suas três pontes de safena e uma mamária.

MÉDICO
Cigarro, bebedeiras, comidas gordurosas, doces... Enfim, nada de excessos. Excessos nunca mais!

STÉLIO
E sexo, doutor?

MÉDICO
Bem devagar. Como se sobe numa escada: degrau por degrau. Entende?

STÉLIO
E se for uma escada rolante, doutor?

MÉDICO
Aí, tudo bem. É só você ficar paradinho, apreciando a paisagem e deixar ela fazer o serviço. Elevador também pode.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sérgio Souto escreve

Com todo apreço

Primeiro eu peço licença
Pra todo povo presente
Pra falar sobre um decreto
Que jogaram sobre a gente

Pra mudar nossos costumes
Nossos hábitos primeiros
Nesse planeta encantado
Nesse grotão Brasileiro

É preciso ter coragem
E também muita vontade
Pra fazer voltar o tempo
Que Deus nos deu de verdade

Não pra agradar o poder
E atropelar sua gente
Em nome de uma tevê
Mas que coisa deprimente!

Mas que falta de carinho
Com o povo que o elegeu
Seu Sebastião Viana Neves
Me diga o que aconteceu?

Não empurre com a barriga
Que o povo vem e lhe cobra
Qual é meu governador?
Não é do senhor essa obra?

Não bula com nossos brios
Com a nossa simplicidade
Temos total consciência
Da sua capacidade

Então respeite a escolha
E a nossa sabedoria
Se perguntar não ofende
Onde anda a democracia?

Não vou mudar meu discurso
Sei muito bem onde eu piso
Sou povo e quero respeito
Pode até chover granizo
“Que eu perco a minha cabeça
Mas não perco o meu juízo”

Não subestime que eu grito
Não grite senão eu canto
Não rasgue minha poesia
Que eu faça mais outro tanto
A liberdade ainda espero
Chegará cheia de encanto.

Deixe alguma coisa boa
Na sua grande biografia
O tempo às vezes perdoa
Mas pode cobrar um dia.

Atrasar nosso relógio
Mexer na nossa harmonia
Quando amanhece de noite
Quando anoitece de dia.

Vai fundo no teu trabalho
Com as ovelhas da Bahia
Com as exportações de peixes
Com as enormes melancias.

Com as camisas da Natex
Com as plantações de cana
Com as toras de madeira
Que saem em caravana.

Cuidando bem dessa gente
Da saúde e educação
Dando mais pão e poesia
E menos prospecção.

É que o povo anda cansado
Meu nobre governador
E não quer por no jornal
O tamanho da sua dor.

Da sua desesperança
Do seu brio e pudor
Gente simples é assim mesmo
Sua bandeira é o amor.

Mas sabe bem o que quer
Conhece bem o seu mundo
Seus rios e varadouros
Seus grutiões mais profundos.

Agora sim me despeço
Mas antes faço um pedido
Espero que o senhor atenda
Esse poeta esquecido.

Palavra é documento
Sei que o senhor não ignora
Faz um carinho pra nós
Traz de volta a nossa hora!!!

Sérgio Souto é poeta, compositor e meu amigo de faz é hora

terça-feira, 29 de março de 2011

Aquarela

Quando vi que era azul o joelho
Daquele velho cano amarelado
E torneira de bronze niquelado
Cujo registro PVA era vermelho

E que o encaixe da mangueira
Atada por um cinzento elástico
Tinha um acessório de plástico
Rosa de listras verde-bandeira

Que contrastava com o marrom
De dois tijolos debaixo d'água
Mais o colorido de uma tábua
Forrada com papéis de bombom

Sob um arbusto de flores lilás
Vendo a fila de formigas saúva
Com os olhos tingidos de chuva
Senti bem ali um aroma de paz

sexta-feira, 25 de março de 2011

Vernaculofobia

Ria não, que é sério! Uma ruma de intelectual tem preconceito - como direi?... vocabular? - por palavras do nosso idioma. Apesar de constarem em dicionários, romances, editoriais, poemas, até em bulas de remédio, livros técnicos e monografias palavras como pus, catarro, puta e sovaco, entre outras são evitadas ou substantivadas por jornalistas, publicitários e oradores. A número zero destas palavras malditas é CU. Pura vernaculofobia.

Esta palavrinha monossilábica, taxada de palavrão, que tem, por sua fácil pronúncia gutural, o extraordinário dom de ser dita até por alguns mudos é marginalizada e excluída do texto e da fala de comunicadores e outros tipos que se julgam doutores, juízes e comandantes do “brasilis modus falandi”. Mas, no recôndito de sua brasilidade, para um xingamento ou um xiste, eles sempre tem CU na ponta da língua.

Poderosa geradora de neologismos e expressões idiomáticas, CU tem sido evitada, descriminada, proscrita, não escrita. Mas a Língua Portuguesa é viva. Novas palavras surgem a cada conversa, cada carta, cada discurso, sigla, logotipo. Nesse gênesis evolutivo, CU não se encolheu. Participativa que é, popular que é não sai da boca do povo. Por mais que se tente ocultar, CU está lá. Se ler com acuro, verá que ali tem CU no meio.

Achava que o grupo mais sem bom humor, que não ria de piada nenhuma era o dos religiosos. Mas não. Tecnólogo de governo ganha de lavada. Não é nem mau humorado, é sem humor algum. A palavra CU é recorrente em anedotas e vitupérios. Se tiver CU, invariavelmente a anedota é engraçada. Se vociferar CU, a ofensa é bem maior. Esses caras sem noção - como publicitário critico, como humorista aprovo.- criaram o Cadastro Único – CU. Ah, fala sério!

É muito distanciamento da gente, né não? Como se vivessem no país onde fizeram intercâmbio, mestrado, MBA, do alto de sua empáfia, esse magote de CDF (Cu de ferro) acha que a palavra CU não significa nada, que nós vamos deixar de fazer piada, que vamos prender o riso. Aí vem o governo estadual, nessa mesma linha, sem graça e lança um programa de pesca, chamado PACU. E haja CU, né? Ô, palavrinha bendita!

Você e eu

Você é desfile de moda
Eu sou topada
Você é cantiga de roda
Eu sou zoada

Você é balanço de rede
Eu sou quentura
Você é água fria na sede
Eu sou só secura

Você é papel de presente
Eu sou embrulho
Você é a feijoada quente
Eu sou gorgulho

Você é muito dinheiro
Eu sou cheque
Você é veículo ligeiro
Eu sou breque

Você é hora do recreio
Eu sou dever
Você não tem nada feio
Eu amo te ver

Você é o que Deus deu
Eu sou de fé
Você é tudo que é meu
Eu sou teu, né?

terça-feira, 22 de março de 2011

Sim, e daí?

Um cara que não gosta de mim, anda a me criticar. Um amigo meu me falou. Eu fiquei puto com aquilo. Não sou de ouvir afronta e ficar calado. Porra! - Eu disse. – Caralho! Mas que merda! Não tenho nada contra ninguém, procuro fazer amizade, agradar, ser cortês, divertido... Obviamente, muitas vezes, sem maldade, achando que tô agradando, desagrado um aqui, outro acolá. Mas, se percebo a tempo, busco remediar, desfazer o mal feito. Não faço por mal. Sou do bem.

Agora, dá licença! Minha vida – quem me conhece, sabe – é achando graça, fazendo por onde os outros riam. Minha profissão é essa! Como ator, poeta, chargista eu busco agradar, descontrair, pacificar. Eu quero é aplauso e não vaia. Prefiro um beijo do que um tabefe. Eu vou bem atrás de tabefe! Ora mais na verdade! Como tudo quanto é artista, eu quero aparecer e ser ovacionado e não levar ovo podre na cara onde quer que eu apareça.

Me orgulho de ser um fazedor de amizades. Inimizades todos nós temos, por isso, por aquilo, por aquilo outro. Tem gente que se realiza quando ofende, desagrada, briga, agride e gera inimigos. Tem outro tipo de gente que não faz impem de desafetos, que coleciona admiradores, que conquista amizades. O primeiro, não suporta o som de risada. Odeia ver gente se acabando de achar graça. Em seu devaneio, vai ao circo só pra vaiar o palhaço.

O segundo, o palhaço, bem humorado, absorve a vaia e se defende, devolvendo o vilipêndio com uma tirada de improviso, muito bem respaldada pela gargalhada do resto da plateia que o apoia e bate palmas. A solitária vaia mau humorada volta, garganta a dentro, empurrada por uma saraivada de outras vaias bem humoradas. O pobre de espírito, iracundo, sorriso amarelo, sai sem graça da arquibancada e, humilhado vai terminar, com punhalada certeira, a vida de quem só queria fazer rir.

Aí é nessas horas que eu fico puto. Quando eu tô feliz, rindo e escutando risada, contando anedota, mangando de um e de outro amigo da roda, embriagados, noite a dentro, na satisfação da alegria aparentemente infinita vem um porra de um “amigo”- Amigo o caralho! -, com fuxico sem futuro, disse-me-disse fuleiro, querendo abaixar o meu astral, cutucando meu mau humor... Um sujeito desses tem que ouvir, né mermo?! “Porra! Vai à merda, caralho!”

Tambaqui

Enquanto eles
Camarão
Caranguejo
No Rio de Janeiro

Nós
Tambaqui
Na cuia

Rioacreando
E nadando
De bubuia
No banzeiro

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A roda e o Choco

Márcio Adriano Chocorosqui é meu amigo de "faz é hora!". É amigo daquele naipe que a gente não pega em arapuca, num sabe? Amigo do vera mesmo. Do tipo que empresta dinheiro e esquece, e quando a gente vai pagar, não aceita de jeito nenhum. Inda fica puto! Manda a gente tomar no cóxi e ir pra casa do Kamai. E, só de mau, espalha pra todo mundo que a gente deve pra ele. É gente fina, o Chocorosqui.

Poeta, jornalista, cartunista, exímio jogador de sinuca, professor de Língua Portuguesa, ator, cineasta, culinarista, bar tender e corintiano. O Choquito é um talento em expansão perpétua. Opinioso, contestador, prestador de atenção... Quando decide ir por um caminho que todos concordam não ser o mais apropriado, ele teima e vai assim mesmo. É intuitivo, impetuoso, destemido e destrambelhado.

Isturdia, lendo em seu blog Blecaute, me instruindo com sua letra sem garrancho e me divertindo com seu talento de contador de boas estórias, soube que ele sofrera acidente locomotivo. Tinha levado uma bela duma queda de bicicleta. O velho Choco, adepto do fisiculturismo, difusor do lema “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa!”, gosta muito de testar suas habilidades adormecidas, no que diz respeito a seus limites físicos ante as Leis da Física.

Roto, todo escoriado, esfolado, asfaltificado levantou e arrastou para fora a ferruginada grade (Outrora luxuoso portão residencial cadeadado) e entrou. Herculiamente carregou para dentro as ferragens do que fora sua bicicleta. Silenciosa e cautelosamente, procurando não chamar atenção de Rutinha, sua consorte, nem de Vanessinha, sua conselheira e dona do veículo de diversão e transporte, tropegou pelo beco, além da varanda, no rumo do quintal matagalhado.

Uma ruma de pegadas, de pé direito nu e pé esquerdo calçado, imprimiram no assoalho rastros de lama encarnada. Uma marca preta, na forma duma mão toda, que ficou no retrovisor direito do carro, que tava na garagem, mais outra, igualzinha, na parede que fora pintada, um dia desses, da cor-da-pele, mais uma bituca de cigarro mentolado foram providenciais para o paramédico do SAMU encontrar o Choquito desabado, dormindo enganchado no único aro ainda redondo, que sobrou da bike.

Dias depois do sinistro, numa de nossas costumeiras pelejas de bilhar, no Sinucão do Cowboy, o Márcio, mostrando o carnegão do joelho pra Raquel (amiga gentil, profissional em cerveja gelada e simpatia), Dona Ruth (respeitável conselheira e experiente prestadora de atenção) e Marcelão (macaco véi, do cu pelado), disse que, para pião rodado, aquilo era besteira e que não há arranhado que Merthiolate não arda, bandeide não cicatrize, patins não aprimore, skate não finalize. E roda a bola, que roda a vida e viva o Choco!