sábado, 30 de abril de 2011

Onomatopeias dos sentidos

Ouvido que leva tabefe,
não ouve nada mais

Ouvido de quem tabefa
Ouve PAFT! e CRÁS!

Corpo de quem desaba
Faz POFT! e STEBEF!

Corpo que desaparece
Faz só VAPT-VUPT!

Beiço passado língua
Franze e faz FIU-FIU!

Língua atrás de beiço
Num faz nem SSIU!

Dedo de mão atrevida
Sai assim: ZIPT-ZUPT!

Dedo de mão em gatilho
Dobra sem fazer TREC!

Venta que fareja muito
Sempre faz FUM- FUM!

Venta de porco novilho
Fuça porcaria. ERC!

Olho que se arregala
Cai da cara. PLOC!

Olho gordo, míngua
Enfraquece e PUFT!

Tesouros perdidos

Um velho adágio popular diz assim: Tem coisas que a gente só valoriza quando perde. Brega, piegas, mas rico em verdade e significado. Possuímos minúsculas preciosidades divinas, que vem conosco desde nascença: os cílios. Fundamentais na proteção de nossos olhos, sutis e essenciais acessórios de fábrica, de tão frágeis e delicados são insubstituíveis. Desleixados, ignoramos sua existência, ainda que sejam o alvo mais próximo de nossa visão.

Não sendo através de um espelho, num paradoxo desconcertante, só enxergamos um cílio quando ele se afasta do olho. Mais patético ainda é que o cílio que costumeiramente vemos, repousado serenamente, feito um cisco no rosto, despregou-se do olho de outra pessoa. Aí a gente comunica à pessoa mutilada, dizendo que tem um cílio em seu rosto e ela, assim como qualquer um de nós, num misto de surpresa e nojo passa, instintivamente na face, as costas dos dedos da mão e afasta para longe, para sempre seu caríssimo pedaço.

As crianças, com sua maravilhosa sabedoria infantil, dão mais valor ao cílio. Tinha uma brincadeira que eu fazia com minhas irmãs, quando pegávamos um cílio. Era um tipo de mandinga, sei lá, pra realizar desejos. Um joguinho divertido que valorizava aquele pequeno pelinho da pálpebra, dando-lhe propriedades mágicas. Creio que ainda tem gente, até adultos que ainda faz isso. Apertando o cílio entre nossos polegares, sacudindo as mãos e dizendo palavras mágicas, quem ficasse com o cílio no dedo, teria seu pedido realizado.

Ana Carollina tinha três pra quatro anos quando viu um cílio em meu rosto. Curiosa, perguntou porque tinha um bigode meu fora do lugar. Eu ri e dei uma aulinha de cílio pra ela. De olhar fixo, atenta, compreendeu a importância daquele pelinho para seu olho, mas ficou pensativa e meio triste ao saber que jamais nasceria outro cílio no lugar de onde aquele havia saído. Me fez dar um bela gargalhada ao perguntar se meu olho ia ficar careca.

Pra alegrá-la de novo, fiz com ela a brincadeira do cílio no dedo. Ela adorou. Ficou super feliz porque ganhou o jogo e seu desejo iria se realizar. Correu, foi espalhar sua vitória pra todo mundo. Aí, sabe como é, né? Começou a me encher a paciência. Queria porque queria que eu revelasse o meu desejo, já que eu tinha perdido o jogo e, em sua lógica extremamente coerente, ela tinha o direito de saber. Insisti que era segredo, isso e aquilo. Sem jeito.

Pra que ela continuasse feliz, eu concordei em revelar meu desejo, contanto que ela também revelasse o seu. Topou. Então eu disse que desejei que ela fosse a menina mais feliz do mundo. Surpreendentemente, ela ficou brava e eu fiquei boquiaberto. Ela disse: Ah, não! Assim, tu ganhou o jogo também, porque eu desejei que, se nascesse de novo, outro cílio no seu olho, eu seria a menina mais feliz do mundo!

Faz uns quinze anos que não a vejo. Sempre que enxergo um cílio, me lembro desse dia. Nunca esqueci daquele cílio. Aquele pequenino membro, que afastei de mim, com as costas dos dedos da mão, num ato desastrado. Nunca mais vi aquele insubstituível cílio, que deixou em seu lugar uma enorme vala aberta em minha pálpebra inferior, por onde sempre passam e jorram, com mais vasão as minhas mais remorseadas e preciosas gotas de saudade.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Filho de Deus

Danilo de S'Acre, objeto artístico, 2006. Acervo Usina de Arte, Rio Branco-Acre

Fecundação

A porta se abre
Entre seios entorpecentes de Zílio
Asas estimulam contemplações e sonhos...
A fecundação súbito um susto!
Invade a ciosa memória
A brisa passa
A hora atrasada permanece
Ainda no pólen estremecido. 


O poeta Danilo de S'Acre, dono de um talento arrebatador é uma dessas obras de arte que Deus demorou um pouquinho mais pra criar e achou por bem, doá-lo ao restante de sua criação. Eu sou um abençoado por tê-lo como melhor amigo.

Altino, mano véi

Agora, pronto! Agora vou dizer!
Mas como é que pode, Altino?...
Inda mais tu! Hum! Sostô você!
Duvidar d'eu?! Ora mais minino!

Isso é coisa? Francamente, viu?!
Vá lá, se fosse ôto no mundo,
A cata dum vapaputaquepariu!
Ou um vassilascar pelo fundo!...

Achava eu que tu me conhecesse,
De faz é tempo, de faz é hora!
Do teatro, do jornal, da agência...

Me rastrear num tal de gugouêrse?
Essa foi de corar Nossa Senhora!
Ah, Altino, tenha santa paciência!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Aldeota

Sou nascido e criado na rua Padre Valdevino, entre José Vilar e Nunes Valente, no bairro Dionísio Torres (abduzido pelo famoso bairro Aldeota, capital de Fortaleza, capital do Ceará), na casa defronte a da dona Alzira, mãe de madrinha Alderice, Nazira e Alísio, tia de madrinha Margarida, Olivar e Mairto, filhos de dona Luiza, a avó de Magali, Marcos Aurélio, Márcio Greyke e Marcílio, primos de Ângela, Egildo e Sandra, filhos do padrim Mozart, irmão da madrinha Margarida.

Maga, Marco, Márcio e Basca (Marcílio) foram (e são) meus vizinhos/primos/irmãos. É assim que me lembro deles. É assim que os amo. Minha madrinha Margarida, conhecida lá em casa como Cumade, me pegou em seu colo, me deu carão e chá de limão com alho e querosene, "mode a gripe". Me deu bolo de milho com café, não deixou a mãe me dar pisa, achou graça das minhas presepadas e dizia “Deus te abençoe!”, toda vida que eu pedia a bença.

Seu Antõe Beto tinha uma bodega sortida, ao lado da casa da madrinha. Lá ele vendia de um tudo. Era bolo maria-maluca, aluá, cocada de coco queimado (que a gente chamava de Martinho da Vila), chiclete Ping-Pong, Batom Garoto, meio pão passado com manteiga, piula-do-mato, Cibalena, pasta Kolynos, sabão Pavão e Gillette Blue Blade. Esposo da dona Albertina, pai da Aila, do  Francisco e do Aldísio, seu Antõe me ensinou a dar nó em gravata.

Vesti terno pela primeira vez pra ir numa festa muito elegante, no Clube Náutico Atlético Cearense, onde meu tio Lisboa foi receber o diploma de médico. Era um paletó antigo do meu pai. Minha mãe, exímia operadora do pedal de sua Vigorelli ajustou perfeitamente o passeio completo, cinza escuro, às minhas medidas. A gravata azul marinho, em contraste com a alva camisa de tergal, fixava o colarinho no pescoço, por meio do nó que seu Antõe atou.

Ali, em derredor daquele quadrado, numa época em que menino traquinas num tinha querer, eu tinha uma ruma de quintal pra correr atrás de queda, pés de caju, manga, azeitona e goiaba onde, vez por outra, ganhava um bicho-de-pé, puxões de orelha e Merthiolate, depois das cutucadas da carinhosa e esterilizada agulha da mãe que, com linha Corrente Laranja, pregava botões nas minhas camisas e cerzia bainhas de pernas de calças do pai.

Eita, que saudade! Tô tão longe de lá. Fazia era tempo que eu num via minha rua. Sim, porque eu vi de novo agora, só em me lembrar. E esse é o único jeito mesmo, fora uns dois ou três retratos, que carrego como bagagem, de eu rever meu quarteirão, meus vizinhos e amigos de outrora, de faz é hora. Só assim desse jeito, lembrando às custas da saudade é que eu ainda posso rever meu lugar,  lotado de histórias, minha amada aldeia, minha velha Aldeota.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Importante

Eu sempre fui um parasita. Nunca deitei sob um teto que não fosse de alguma pessoa que me tivesse amparado. Tenho meio século de vida, menos algumas horas. Sou egoísta, trapaceiro e mentiroso. Por ser desprovido de honra, vergonha na cara e moral suporto ofensas, agressões, desprezo e escárnio sem problemas. Tenho preguiça, sou incompetente e irresponsável. Fujo do trabalho. Sou folgado.

Rude, grosseiro, cruel esnobo quem me ama. Também nunca amei verdadeiramente pessoa alguma. Frequentemente, sem o menor remorso, desprezo minha família e exalto meus amigos por conveniência. Sou perdulário, hipócrita e dissimulado. Sou invejoso, aproveitador, cínico e covarde. Não tenho escrúpulos nem remorso quando engano, desrespeito e humilho quem não me convém.

Roubo, trapaceio, exploro e abandono qualquer pessoa. Seja mãe, irmãos, filhos, amigos. Sou ingrato, falso, perverso, infiel e insensível. Não tenho respeito por ninguém, sou inconveniente, indiscreto e mal educado. Sou orgulhoso e vingativo. Não sinto pena de ninguém. Sou destemperado, deselegante e violento. Sem controle, indisciplinado, não tenho metas, sou desastrado. Não tenho discernimento.

Sou feio, mal arrumado, fedo. Fumo, bebo, jogo. Sou pervertido. Ando mal acompanhado. Sou arruaceiro, desqualificado, detestável, tosco, doente, ordinário, insignificante. Mas, ainda assim, com todos esses atributos desprezíveis e abomináveis alguém foi maravilhosamente bondoso comigo. Me fez acreditar que sou importante, quando morreu em meu lugar, pregado numa cruz. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

domingo, 24 de abril de 2011

Só se der

Se der pra eu falar agora,
Eu falo.

Mas,
Só se der

Se não der...
Falar o quê,
Né assim?!

Só se der

Sempre falo isso
Pudendo,
Eu falo

Se der,
Eu falo

Mas,
Só se eu puder

Posso?
Agora?
Falar?

Só se for possível,
Né?
Eu sei...

Só...

Sei...

Sim...

Sei...

Não!
Não.

Só se der
Né assim?!

Corri com um

Fiquei mei indignado isturdia. Sujeito ficou abismado ao saber que eu tinha tino pra criar e desenhar marcas, logotipos e slogans. Só não parti pras vias de fato porque raciocinei na mesma hora. A culpa não era do admirado, mas minha. "Casa de ferreiro...", né mesmo? Eu é que não tenho mais divulgado minha profissão, não tenho mais mostrado meu post folio, meu curriculum. Taí uma pequena amostra do trabalho deste humilde diretor de arte publicitária. Qualquer coisa, precisando ligue: 068 9202-0689, falar com Braga.

Ausência presente

Estranhamente, nenhum convidado compareceu
Na espetacular comemoração do homem rico
Tanto mais penso nisso, mais encafifado fico.
Como isso foi possível? O que foi que aconteceu?

Muito mais esquisita foi a reação do milionário
Que sorria serenamente, no assoalho relaxado
Não chorou porque, em seu festejo malfadado,
Ganhou um presente, no dia do seu aniversário

Era uma mensagem enviada ao seu celular
Que tilintava os vitrais das janelas na grade
Com a canção, tradicionalmente repetida

Aquela que a gente é acostumado a cantar
Sem querer mesmo cantar, sem vontade
Batendo mão, sem ritmo, sem dó, sem vida

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Nudez

Do que tens medo, garota?
Não existe sentido nisto
Tentar cobrir teu priquito
Agora que estás sem roupa

Te despes também de receios
Que já sinto tua libido fecunda
Nos pelos eretos de tua bunda
E nos biquinhos de teus seios

Porque essa crueldade comigo?
Pois que, ao beijar teu umbigo,
Cheirosos pelinhos pubianos vejo

Não me imponhas tal castigo
Tira tua mão. Não tem perigo
Dá pra mim a visão do teu desejo

terça-feira, 19 de abril de 2011

Soutando o verso ou Rogando Braga a verso Souto

Sérgio Souto quero te perguntar
Já pedindo que tu não fiques puto
Diga aí, amigo véi, o que é que há?
Porque tua voz não mais escuto?

Vai! Puxa da memória e pensa
Nas conversas que teve comigo
Há em mim, saudade imensa
De querer ouvir a voz do amigo

Quando eu ouvi seu canto e voz
Vi, remeninado aluno de escola,
A mala aberta, cheia de fá-lá-si-dós
De um mestre em poesia e viola

Cadê ele, alguém me diga! Cadê?
Aonde tá o acreanador tão criativo
Mixador de dó-ré-mis no que dizer
Porque que se calou, qual motivo?

Como nenhum de nós dois é modesto
Que assim, sem falsa modéstia (Não ria!)
Receba estas letras, não como protesto
É um pedido encarecido por sua poesia

O jardineiro, a flor e o poeta

O jardineiro
Vê a flor
Cheira a flor
Rega a flor
Colhe a flor
Leva a flor

O poeta
Olha a flor
Admira a flor
Deixa a flor
Leva o perfume
Da flor

O jardineiro
Volta
Vê a flor
Cheira a flor
Rega a flor
Deixa a flor
Murcha
Sem perfume
Sem cor
no celofane

O poeta
Guarda
Para sempre
o perfume
da flor
que volta
sempre
sempre
sempre...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Estratagema

A cheia do Rio Acre é uma das maiores dos últimos anos. As administrações estadual e municipal (da capital) podem até usar suas ações em prol dos desabrigados como uma de suas plataformas de campanha, na próxima eleição. Tanto é que, extraordinariamente o prefeito transferiu seu gabinete para dentro do parque de exposições. Estão admiravelmente preparados tecnicamente para segurar essa adversidade natural e transformá-la em dividendo eleitoral.

Raciocinemos pois. Recursos para os programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, estão aparentemente em stand by. Podem ser facilmente desviados e destinados, de forma estritamente legal e de consenso popular para os flagelados da cheia. O recente episódio da invasão das casas do bairro Ilson Ribeiro, inexplicavelmente não entregues à população é, teoricamente, uma prova desta minha simplória elucubração.

Projetos paisagísticos e ecoturísticos, diga-se de passagem, excelentes, como o do Parque do Igarapé São Francisco, emperrados por questões indenizatórias e ambientais, entre outros entraves jurídicos podem ser rapidamente liberados mediante um evento catastrófico natural. Achei muito providencial essa transferência da prefeitura para junto dos flagelados que, frágeis, mediante modernas técnicas psicopedagógicas podem ser facilmente doutrinados.

Comunidades que vivem em favelas às margens do Rio Acre e do Igarapé São Francisco, podem ter dissolvidos, assim, instantaneamente seus problemas sociomonumentais, politicamente difíceis e caros de resolver, através de um simples decreto estadual de calamidade pública. É uma sacada genial. A oposição tem que rezar pra não chover mais uma gota d'água. Ou, por outro lado, se resignar e agradecer a Deus por terem adversários tão eficientes.

Enquanto eu divago em teorias conspiratórias, o tempo passa por mim. Daqui da minha janela vejo um céu de brigadeiro. Deixo minha imaginação voar. Não ouço trovões, não há vento nenhum. As folhas do pé de cupuaçu estão bem quietinhas. Esse calor me incomoda. Geralmente isso é prenúncio de tempestade. Estou apenas supondo. Por via das dúvidas, comprei um par de galochas e um guarda-chuva bem grandão.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Filha da Zorra

Antônia Lúcia, desde que voltou ao Acre para, única e exclusivamente conquistar um qualquer cargo eletivo, se utilizando da boa fé e também da má de alguns eleitores conseguiu se eleger deputada federal, mas deixou um rastro de seboseira por onde passou.

Após cada pleito em que a deputada participou nos últimos anos, se seguiram saraivadas de denúncias de negócios escusos, pedidos de prisão, cizânia no mundo pseudo-cristão-evangélico que comanda, diversos processos judiciais e sem número de versões nada esclarecedoras, tampouco convincentes publicadas na imprensa.

Colecionadora de ex-empregados revoltados, ex-apoiadores engalobados e ex-sócios pernapassados a deputada é mais conhecida na sociedade acriana, não como a Filha da Terra – Slogan de campanha que adotou, quando voltou ao Acre - , mas como praticante contumaz do conto-da-missionária – versão celular do velho conto-do-vigário.

Cheia de rolo com a justiça e a polícia, acusada de compra de votos mais uma montanha de crimes eleitorais, metida numa ruma de negociata política, cercada de parceiros irados com os resultados nada satisfatórios de seus negócios mau enjambrados a Filha da Terra poderia até mudar seu nome e apodo numa próxima campanha eleitoral. Tipo assim: Vote Antônia Súcia, a Filha da Zorra.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Súcia

Para o pífio
é mais fácil
Que o sócio
Desde o início
Seja néscio
Sem astúcia
Ou audácia

Seja dócil
Com ausência
De malícia
Tenha o vício
Da inocência
Mestre em ócio
e ignorância

É do pífio
a ganância
a falácia
a milícia
o comício
a delícia
e o palácio

terça-feira, 5 de abril de 2011

Rosa

Os nomes das flores são fáceis
Vulgares, difíceis, exóticos
Impronunciáveis, científicos
Simbólicos, óticos, fonéticos

Das flores, nos vem à memória
Suas qualidades mais óbvias
Suas singulares características
Assíduas em todas as línguas

Das quais, suas cores tão várias
Suas vastas formas complexas
E suas inesgotáveis essências
Relembramos bem mais rápido

Porém, seus nomes múltiplos
Sempre nos surgem, heroicos
Na frustrante ausência de ideias
Para um batismo de emergência

Eles, usados em versos poéticos,
Editados em páginas jornalísticas
Registrados todo dia em cartórios
Ditos em papos, cartas e músicas

De tão constantes em nossos lábios
Nos apropriamos de seus domínios
Destituímos das flores seus títulos
Desde o Gênesis, suas proprietárias

Aí, nominamos nossas famílias
Nossos bichos, nossos negócios
E tudo que possa ser nominável
Listados numa soma inconcebível

E arbitrários, em nossa empáfia
Adotamos alguns nomes ótimos
Todavia, outros nos soam patéticos
Destes, cito abaixo pouquíssimos

Meu tio, de nome Crisântemo,
É irmão de Flor-de-lis e Begônia
Lírio é o meu filho primogênito
A Margarida é a minha caçula

A do meio é chamada Orquídea
Soraia é uma prima legítima
Açucena nasceu em Brasília
Onde estudou Ciências Políticas

Quem nasceu aqui foi Acácio
Junto com a sua irmã gêmea
Criativamente chamada Acácia
Nomes dados pela avó, Azaleia

Violeta quer ser arqueóloga
Raquel é que foi pra Bulgária
Doutor Cravo mora no térreo
E é casado com dona Camélia

Girassol é o nome da síndica
Nosso porteiro é seu Crescêncio
Antúrio é meu amigo de infância
Filho adotivo do Cabo Gerânio

Jasmim é o sobrenome de Dália
Fui apaixonado pela Gardênia
E Hortêncio conheceu a Vitória
No Bar do Papoula, lá na Bahia

Rosa, nome da flor mais pública
Dona da mais popular fragrância
De mais bela forma arquitetônica
Onde mistura espinhos a pétalas

A flor dos verdadeiros românticos
De todas as flores, a mais simpática
Que também de amor ela é sinônimo
É o nome da minha mãe, coincidência