sábado, 27 de novembro de 2010

Dalmir Ferreira escreve

Cansaço

Cansado, vou me despindo
das fantasias da juventude.
Acolhe-me a doce quietude
de quem está se despedindo

O coração em tal amplitude
se cala num desejo infindo
de outros ares sempre rindo,
em seu silêncio, que ilude...

Vai na ordinária decrepitude,
comum a quem já está indo
na luz que desfaz a negritude

Cantar o seu canto mais lindo,
no amor de maior magnitude
o canto de quem está partindo...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Telefone da Peema

Telefone-da-PM

Olha a bala!

Cristo-Redentor-esburacado

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Frango com Whisky

Enviada pelo meu quase futuro cunhado, mas sempre amigo Ivan de Castela. Muito boa a receita, Ivan.

Ingredientes

- 01 garrafa de whisky 18 anos (Do bom, é claro!)
- 01 frango de aproximadamente 02 quilos
- Sal, pimenta e cheiro verde a gosto
- 350 ml de azeite de oliva extra virgem
- Nozes moídas

Modo de preparar

- Pegue o frango
- Beba um copo de whisky
- Envolver o frango e temperá-lo com sal, pimenta e cheiro verde a gosto.
- Massageá-lo com azeite.
- Pré-aquecer o forno por aproximadamente 10 minutos.
- Sirva-se de uma boa dose de whisky enquanto aguarda o forno aquecer.
- Use as nozes moídas como tira-gosto.
- Colocar o frango em um a assadeira grande.
- Sirva-se de mais duas doses de whisky.
- Axustar o terbostato no drês e, debois de uns... vinch binutos, botar para assassinar... Digu: assar a ave.
- Derrubar uma dose de whisky debois de beia hora, formar abaertura egontrolar a assadura do peixe.
- Tentar zentar na gadeira, servir-se de uoooooooootra dose sarada de whisky.
- Cozer(?), costurar(?), cozinhar, sei lá, voda-se o pernil.
- Deixáááá o filho da buta do pato no vorno por umas 4 horas.
- Tentar retirar o vrango do vorno. Num vai guemar a mão, garaio!
- Mandar mais uma boa dose de whisky pra dentro. De você, é glaro!
- Tentar novamente tirar o sacana do vrango do vorno, porque na primeira teenndadiiiva dããão deeeeuuuuu nem coscarai de asa... essa borra.
- Begar o vrango que gaiu no jão e enjugar o filho da buta com o bano de jão e cologá-lo numa pandeja ou qualquer outra borra, bois avinal você nem gosssssssssta muito dessa bosta mesmo de bode azado.
- Bais uma toss dji cachaça iiiii... Tá bronto!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Pedofilia

Faz muito tempo. Tenho uma vaga lembrança. Sei que foi algo divertido pra mim. No escuro, eu em cima dela, entre suas coxas suadas. Eu ria, mas acho que ela chorava e, ofegante dizia algo no meu ouvido, ou tentava dizer. Não entendia nada do que ela falava, não lembro. Só sei que eu ria e ela gemia muito.

Se chamava Maria, Mariazinha. Acho que ela deveria ter assim, uns quinze pra dezesseis anos, por aí. Me lembro bem do sorriso e do olhar dela. Lembro muito bem como ela olhava e sorria pra mim. Ela me deixava sem jeito. Morria de vergonha. Tinha medo que os outros percebessem. Mariazinha era muito atrevida.

Me beijava em público, assim, do nada. Me beliscava, dizia coisas no meu ouvido. Eu fugia dela. Fugia, sim! Quando não tinha ninguém por perto, ela me deixava ver suas intimidades e, nua, saindo do banho dizia, rindo: Vem cá, deixa de ser medroso! Eu gostava dela sim. Não tinha como não gostar.

Um dia, depois de muito tempo, com minha esposa, na casa de minha mãe, lá estava ela. Confesso que não a reconheci. Pedi a bênção de mamãe e cumprimentei a visita, me apresentando. Na mesma hora, me lembrei. O sorriso e o olhar ainda eram os mesmos. Minha mãe inquiriu: - Ah, filho, eu não acredito! Esqueceu da Mariazinha?
Respondi: - É, mãe, realmente não havia reconhecido. Faz muito tempo, mas a primeira babá a gente nunca esquece! Não é, Maria?

Epitáfio

Narizes tapados, cabeças com toucas,
Mascarados ouvidos, atentos,
Em chegados meus findos momentos,
Agüentarão as pobres falas poucas

As que hei de soprar da catingosa boca,
Por entre restos pretos de dentes,
Dirigidas aos benditos sobreviventes,
Parceiros, heróis de vida igualmente oca

Pra que ninguém nunca esqueça, ainda
Que os lábios e a língua não prestem mais,
Usarei até libras, farei grande alarde

Já que risada em hora de pranto é bem-vinda,
Na lápide, que não se escreva ”Aqui jaz”,
Que se leia em alto relevo “Me aguarde!”.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Culturologistas se manifestam

Um manifesto pela cultura no Acre:
“SEM RECUAR... SEM CAIR... SEM TEMER...”.


Passado o susto de advertência da população no pleito eleitoral no Acre, o futuro governo acreano promete, segundo a imprensa, nomes do secretariado pra já. O atual que sai comemora o Dia Nacional da Cultura sancionando a lei do Sistema Estadual de Cultura, mas no todo, já passam 12 anos de PT no poder e a cultura no Acre, de fato, não tem muito o que comemorar. Mudou alguma coisa mesmo? Que mudança? A pergunta se faz resposta.

Repetindo os velhos vícios da política local, em que predomina uma mentalidade não só imune como hostil às verdadeiras mudanças, podemos vislumbrar mais um quadriênio em que a cultura terá menos ainda o que comemorar, pois se não houve promessas de campanha, haverá o que fazer? Ou melhor, o novo governo, em estado de descompromisso pré e pós eleitoral, não fará o que bem entender?

Sem ouvir a comunidade cultural como deveria, antes e, principalmente, depois do pleito, ignorando que é constitucional a elaboração do plano plurianual da cultura pelo Conselho, o governo seguirá optando por opiniões próprias e autoritárias, por políticas alheias, inadequadas e ilegais, quanto ao que o setor aspira? Seguirá o governo, com ouvidos moucos?

O Conselho Estadual de Cultura, para melhor contribuir com a idéia de verdadeira participação popular na administração da cultura, criou, em seu Regimento, o poder de indicar, em lista tríplice, nomes para o comando da Fundação Estadual de Cultura. Há quatro anos, a lista tríplice endereçada à atual gestão, após processo democrático de escolha, recebeu como resposta, a indiferença. No atual momento, a Presidência do Concultura, infelizmente até agora não se manifestou sobre o processo de indicação da lista tríplice, o que esperamos seja feito imediatamente, para que o futuro governo não diga que não sabia da opinião da área cultural.

Nem as políticas de cultura, nem seus gestores devem ser imposição. Agir assim é ferir os princípios constitucionais da democracia, da participação e da legalidade, pois a participação social nas gestões públicas já é um imperativo constitucional. A opção pela imposição traz toda sorte de malefícios à gestão, a começar pela indicação aleatória e sem critério de seu comando até a consecução de eventos caros e sem resultados efetivamente sociais e culturais...

De tudo, além do alto custo público e do precioso tempo que se perde, há o fomento à mediocridade pelo qual se vê grande parcela da população incapaz da leitura, seja de livros ou da própria cultura. Vê-se em tal postura gestora, um crime de responsabilidade geracional, que tem condenado um povo à eterna condição política subalterna e de quase nenhuma auto estima cultural.

O Conselho de Cultura tem sofrido desse mal também. A grande evasão das boas mentes ali verificadas bem se explica: ninguém quer participar de um conselho de faz-de-conta. Estão ali cidadãos que exigem o respeito a que tem direito. É lamentável que ainda se criem leis para não serem cumpridas e que não seja garantido seu cumprimento por quem deveria.

A classe artística, sem visibilidade ou reconhecimento, de modo geral, vai se tornando descrente e indiferente às promessas e discursos que se acumulam sem maiores resultados. Não desejamos que os que persistem no Conselho sejam derrotados pelo cansaço e que só reste espaço para os que não acreditam, mas ficam por proveitos pessoais ou os que têm pouca noção do processo, oportunistas que ao fim não têm legitimidade representativa.

Com leis, eventos e silêncios nosso estado é um prodígio de gestão cultural e educacional democráticas: enquanto o governo propaga a noticia de que possui a melhor educação do país, não existe em seus quadros licenciados em artes, nem sala de aula voltada para a arte-educação. Sem falar que os seus espaços culturais como galerias, teatros, bibliotecas, museus, rádios e TVs educativas são geridos sem a participação e controle popular e sem os especialistas da área. Enfim, tem uma série de outras coisas inexplicáveis que pode tudo dizer, menos que há efetivamente políticas culturais e educacionais de qualidade.

Diante desse quadro, que exige um firme posicionamento, mais do que o silencio conivente, nós produtores culturais, que abaixo assinamos o presente manifesto, exigimos do governo eleito que não tenha medo da democracia e que abra as portas do poder para a participação popular na área cultural, sem recuar a legislação da cultura, sem cair em gestão participativa de faz-de-contas, e sem temer os artistas e a cultura.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Manoel Laércio escreve

Perguntei ao amigo Manel (Manoel Laércio, conhecido nas memoráveis conversas etílicas como Guga, uma referência ao Google, que tal qual Manel, sempre responde o que a gente pergunta) se ele, que é excelente poeta, já havia criado algum palíndrome.
- Palíndromo, ignorante! - Disse, com sua peculiar delicadeza e, para o deleite dos presentes sapecou este exemplar de sua lavra.


Lâmina animal

A pata a tapa,

Acata e ataca.

O corte troco,

A vala lava.

A terra arreta

E

Lima a mil.

sábado, 6 de novembro de 2010

Gesierres

Com trigo
Faz-se esfirra
Com gripe
Se espirra
Com rei mago
Se tem mirra
Com galega
Se tem hija
Sem trégua
Sobra birra
E a guerra
Se acirra
He-Man grita
Por She-Ha
E a galera
Grita "Irra!"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Plurais

Cútis, crânios e sonhos

Sextas, sexos, festas

Danças, testas, taxas

Bônus, graxas, ânus

Crentes, cristos tristonhos

Textos, revistas, palestras

Livros socados em caixas

Debaixo de beliches e panos

Ingressos vendidos, eventos de graça

Buchichos, fuxicos, senhas secretas

Copos de plástico cheirando a cachaça

Discursos escritos por mãos analfabetas

Rachas, faixas, marchas, sussurros

Descrenças, mitos e controles remotos

Bancos de praça, pombos e churros

Conquistas, danos, contagem de votos

Rasgos de risos estranhos

Doses a mais, exageros

Zoadas, escárnio e dentes

Coxas encostadas em coxas

Bocas fechadas ou frouxas

Coisas tóxicas e dependentes

Bostas, destroços e cheiros

Humanos, perdas e ganhos

Espasmos, orgasmos escrotos

Espinhos de rosas esquecidas

Em vasos – começos de esgotos –

De paixões mal resolvidas

Doenças de mentes aflitas

Conversas cretinas, sem nexo

Propostas, mentiras bem ditas

Pra encaixar côncavo em convexo

Convites, pizzas e táxis

Distâncias, rancores, corações

Telefonemas, cartas, faxes

Palavras incolores, perdões

Xistudos, excessos de refrigerantes

Chuvas, tosses, atchins

Beijos, xaropes expectorantes

Samambaias suspensas em xaxins

Mãos bobas, astutas, espertas

Entre pernas abertas, suspiros de sins

Paus duros esfregando xoxotas alertas

Cobertas por grossas calças jeans

Audaciosos aprendizes, peitos e pés descalços

Areias movediças, gulosas até o pescoço

Algozes profissionais, reis de nós e cadafalsos

Silenciosos, à espreita da caça pro almoço

Rimas pobres, surgidas em assentos de ônibus

Esperanças cansadas, doutoradas em dor

Teimosos achistas que amor tem sinônimos

Antônimos, talvez, mas só plurais tem amor